Idealismo pelas Ideias

No nosso todos-os-dias há um certo desrespeito pela individualidade e singularidade, pelo que é pensado e sentido – pelo que é genuíno. Somos cedo desarmados do que poderia ser a nossa identidade, agrupados e separados por clubes, religiões e partidos que criam os nossos objetivos académicos e profissionais, moldam o que nos é permitido sonhar, e provavelmente gerirão as expetativas que deixamos aos nossos filhos e netos. Fugir dessa marca – não poucas vezes “de nascença” – é para mim um instinto tão natural a todos nós quanto ao gado que coiceia a visão de um ferro em brasas no lombo.

Porquê deixarmo-nos catalogar pelas ideias dos outros? Porquê fanatizarmo-nos e idolatrarmos os que dizem pensar para nós? Porquê deixar que as discussões que temos todos os dias não sejam mais que um braço-de-ferro obstinado entre que mundo imaginário é dono e senhor da razão? Porquê deixar de perguntar “porquê”?

Compreendo que a curiosidade é inquietante, que a honestidade intelectual que nos clama que podemos não estar certos pode ser cansativa e exigente, mas como abdicar do nosso estado natural de inquietação por um conforto redundante e artificial que nos dá respostas cegas, que nos impõe cruzadas pela sua falsa Verdade e nos deixa em constante estado de guerra uns com os outros? Não só nos esquecemos da essência da tolerância, como não compreendemos que o que pensamos e sentimos é tão volátil quanto o número de experiências diferentes que sentimos – temos medo dos que pensam diferente, atacamo-lo, e de tal forma nos juntamos aos que pensam igual a nós que fingimos que a realidade se cinge ao que vemos, e o que lhe sobra não é se não um ataque a essa realidade e à serenidade artificial que a adorna. Ao longo deste processo perdemos uma parte fundamental da nossa humanidade: a empatia, que tantas vezes nos permite a humildade de reconhecermos outras perspetivas como válidas, e outras tantas nos permitiu evoluir como um todo pela assunção de que à partida somos, de facto, ignorantes. A minha premissa é tão simples quanto isto: ao permitirmos que a sociedade nos entorpeça a curiosidade e à medida que nos isolamos da diferença, violamos a nossa vontade original de conhecer cada vez mais, de nos aperfeiçoarmos e de criar um mundo melhor para todos.

Se “nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio”, então há que romper com esta cultura de polos isolados. Há que reconhecer a diversidade enquanto se procura de forma isenta e genuína a validade e razoabilidade de cada ideia. Há que incentivar o bom-senso e reformar o senso-comum. Noutras palavras: há que Debater.

O debate competitivo está longe de ser um pleno oásis, final e completo em si mesmo, mas tem sido a ferramenta ideal para abrigar o desassossego dos que, como eu, se sentem inquietos com as verdades coletivas, que pensam maior e querem conhecer mais. Incentivando a oposição de visões alternativas, o estímulo crítico que carrega em si é motivo suficiente para a sua promoção junto dos mais jovens, dos que talvez ainda não tenham tanto medo de pensar por si próprios, de descobrir as suas próprias verdades, de escrutinar a realidade por si próprios e talvez – e só talvez – de almejar a algo melhor para todos, mais tarde.

Tiago Oliveira

29 de setembro de 2017