O passo em frente para que não se dê dois atrás

Cheguei a Mannheim vindo de Frankfurt, cidade que alberga o centro financeiro da Zona Euro e a sede do Banco Central Europeu. Por volta das 10h da manhã cruzo a, cada vez mais ténue, fronteira franco-alemã para chegar a Estrasburgo. Disfruto desta viagem enquanto estudo em Madrid no âmbito do famoso programa Erasmus, que me proporcionou a oportunidade de aprender Economia numa Instituição diferente.  Sobretudo, que me permitiu poder sair da minha “ilha” intelectual de Lisboa. O objetivo de vislumbrar outra “ilha” é fundamental para que possa sair de mim mesmo e ver um pouco mais “arquipelagamente”, como Saramago metaforizou, e muito bem.

Voltando a Estrasburgo, ir à capital da Alsácia e não visitar o Parlamento Europeu é como ir a Roma e não ver o… Coliseu (o Papa não me interessa assim tanto). Tenho aprendido sobre o Projeto Europeu como nunca, e com isso veio uma reflexão mais profunda e, fundamentalmente, informada sobre o mesmo, graças à asignatura de Economía Europea que os Madrilenos me ofereceram. Desse modo, não haveria melhor altura para visitar um dos corações da União. Edifício imponente e marcado por mensagens e simbolismos. O espelhado que circunda a Infraestrutura não a cobre na totalidade de forma a remeter para uma ideia de que a Europa enquanto Comunidade terá sempre um caminho a mais para percorrer, ou seja “haverá sempre uma obra por acabar”. É uma atmosfera envolta nos pilares iniciais de Schumann e Monnet, nos passos importantes dados por Delors, mas também na visão de um futuro que exige outros desafios diferentes de 1957 ou 1986, mas que têm de ser respondidos com base nos mesmos valores basilares.

A Globalização, as migrações em massa, a política externa, as Crises nacionais (que ainda anda por cá apesar das Madonnas e dos Cantonas fazerem parecer que não), são temas fraturantes, atuais e inadiáveis.  Não quero entrar por hipóteses ou sugestões de como as solucionar especificamente e detalhadamente porque não é esse o objetivo deste texto, assim como não é julgar as medidas e políticas que têm sido tomadas nos últimos anos.

O que quero ressalvar é que independentemente de isso Valores mais Altos se Alevantam e que não devemos abandonar um Projeto que se veio a verificar absolutamente visionário à época e que no fundamental é um dos marcos mais bonitos da História Mundial recente marcada por duas grandes guerras, graves crises económicas e uma guerra que dividiu o Mundo em dois.

 A discussão sobre a reforma da Europa é legítima, necessária e urgente. Tapar os olhos a essa questão é procurar mais Brexits. Vivemos períodos em que não há coragem necessária para dar o passo seguinte na Integração, mas que na prática já existe em grande medida, vivendo num limbo extremamente perigoso e corrosivo. Se por um lado a UE é um órgão pouco democrático, só havendo verdadeira democracia na eleição do Parlamento Europeu, por outro tem imenso poder sobre a política dos países retirando-lhes uma grande fatia da sua soberania. A Política Orçamental, a título de exemplo, é praticamente imposta pela Tecnocracia Europeia.

Dado esse limbo, muitas pessoas advogam dar o passo atrás, eu vejo que só o passo em frente faz sentido tendo em conta a Globalização e o rumo que a Humanidade parece levar, como um todo. Democratizar as instituições europeias, apostar nelas, envolve-las e aproximá-las dos cidadãos é o passo que se tem de intensificar. Colocar Bruxelas e Estrasburgo cada vez mais perto do José que vive em Sagres, em Portugal, ou do Cristian que vive em Constança, na Roménia.

Pensar cada vez mais como um todo, pela Verdade e por objetivos que terão de ser necessariamente comuns.

Existirá uma biblioteca inteira de teorias que mostram que a abertura de fronteiras com aumento dos mercados, da concorrência, etc. leva ao crescimento económico, a História provou-o na Europa e no Mundo. Mas a UE é muito mais que isso: tem vindo a crescer no sentido de ser cada vez mais uma União Além-Económica, apostando cada vez mais numa integração completa com o objetivo de chegar a praticamente todas as áreas. É responsável por inúmeras questões Macro como saúde, ambiente, agricultura, pescas ou apoio regional, que ao serem tomadas com um objetivo comum e coordenadas, respondem da melhor forma aos interesses da sociedade europeia. Mas ela vai mais longe, traz vantagens também Micro, se assim lhes podemos chamar, mais interpessoais, na influência sobre a sociedade como um conjunto de indivíduos únicos e singulares. Proporciona crescimento pessoal a cada um de nós, pela interação intelectual com perspetivas tão diferentes naturais à sociedade. É a constante aquisição de conhecimento sobre culturas tão diversas (mas também com bases tão semelhantes) que pode levar a um melhoramento contínuo em busca da Verdade e com Ela procurar uma cada vez melhor qualidade de vida, no sentido mais amplo que a sua definição pode ter. Mas sobretudo, este ideal viabiliza essencialmente um mundo de Liberdade, onde ninguém está preso às amarras de uma situação aleatória que é o local e as condições em que nasce. E é nessa Liberdade que hoje estou aqui na biblioteca da minha Universidade em Madrid, muito mais enriquecido depois da viagem que fiz e com a certeza de que irei aprender mais até janeiro em solo espanhol. Voltarei a Lisboa com mais “ilhas” observadas, e com mais e melhores ferramentas de forma a contribuir para a minha Sociedade, que vai desde Sagres a Constança, por agora.

“ Don’t tell me there’s no hope at all. Together we stand, divided we fall” – Hey You, Pink Floyd, The Wall (1979)

 

João Catarino Campos

28 de outubro de 20117