Porquê o Debate Competitivo?

Durante o atual mandato desta direção, temos trabalhado para levar o Debate um pouco mais além da Universidade de Lisboa. Acreditando num recrutamento de longo prazo para a SDUL, para todo o Movimento Nacional de Debate Competitivo, e no fundamento per se de dar a conhecer o Debate a mais jovens, a SDUL tem-se focado em divulgar o debate junto de universitários de todo o tipo, e, em particular, junto das escolas secundárias.

Pessoalmente, neste processo, fui sentindo aqui e ali algumas reticências ou simples dúvidas de porquê o Debate Competitivo e porquê sob regras de um modelo específico. Tudo isto são questões, não só legítimas, como extremamente pertinentes. Sendo que me vi, pela primeira vez, desafiado de forma mais profunda e constante a ter de conseguir explicar quais são as vantagens desta forma de debater. Porque é que gostando de discutir ideias tenho de me sujeitar a ter 7 minutos para falar, decorrendo os discursos de forma alternada como, por exemplo, o modelo competitivo British Parliamentary (BP) nos exige?

Serve então este texto para explicar por que é que, na minha visão, o Debate Competitivo e os modelos BP e Schools (que são os únicos dos quais tenho um domínio mínimo aceitável e que, no essencial, não são muito diferentes) fazem realmente sentido, em detrimento de formas mais flexíveis de se debater. Procurarei, deste modo, debruçar-me sobre vários pontos que, no meu entender, são fulcrais para tornar esta forma de Debater tão especial.

Competitivo

“Gosto de discutir ideias, mas não o faço com o objetivo de ganhar” ou “o carácter competitivo coloca uma pressão dispensável”

A hierarquização de posições (1.º, 2.º, 3.º e 4.º lugares) é essencial para que o jogo tenha incentivos mais claros à participação, melhoramento pessoal, estruturação do “jogo de debate” e uma certa objetividade. Essa objetividade, que se trabalha para se ter, está patente em inúmeros materiais pedagógicos de debate feitos a nível nacional e internacional e em formas de avaliação como a Tabela de Internacional de Speaker Points. Neste caso, “jogo” é realmente uma palavra que faz sentido. Ou seja, tal como no Xadrez ou no Jogo da Glória, há um vencedor e um derrotado, aqui também haverá. No entanto, as interpretações e a forma como lidamos com eles são já subjetivos a cada pessoa, como em tudo na vida. O essencial no Debate Competitivo não é ser competitivo, mas o Debate em si – apesar de o nome Competitivo ser importante para que este seja o mais enriquecedor possível.

Falar de forma alternada

Esta característica, onde cada pessoa fala 7 minutos, do lado do governo para a oposição e da oposição para o governo (proponente para oponente e oponente para proponente no Modelo Schools), é importante para dar ordem ao rumo da discussão com base na interligação argumentativa e contra argumentativa – elemento essencial para que o debate esteja conectado e para que haja maior facilidade de acompanhar e avaliar. Contudo, independentemente da altura em que o orador discursa, ele tem sempre oportunidade de intervir breves segundos durante o discurso da bancada oposta, se lhe for dada a palavra pelo orador que estiver no púlpito.

Escassez de tempo e recursos no Prep-Time

Isto é uma das características mais apaixonantes do debate e, para mim, a mais capacitante. Seja no BP (que dura 15 minutos ou 20 minutos) ou no Schools (depende das suas variações), o facto de teres muito pouco tempo e recursos informativos escassos (a tua cabeça chega) estimula qualquer participante a ter um tipo próprio de raciocínio que, a partir de um determinado nível, se torna, não só intuitivo, como natural. Olhas para o tema, seja qual for, e em minutos (às vezes, segundos) pensas: o que é para se debater exatamente aqui? Que impacto têm as medidas propostas? Que cenário alternativo existe? Será ele melhor? Que pessoas são afetadas? Qual a relevância de cada argumento? Que contexto é preciso, ou seja, como é o Mundo hoje para estarmos a discutir isto?

É extraordinário a forma como se pode aplicar isto na vida pessoal e profissional. Muitas empresas afirmam que a skill mais importante de um colaborador é a capacidade de resolver problemas. Saber ponderar sobre eles é parte importante da resolução, e o Debate fornece isso de forma exímia. Além disto, a importante procura pela Verdade das Coisas é bem mais facilitada quando a capacidade de refletir os problemas com ceticismo é feita de forma mais oleada e incisiva.

Posição aleatória

Antes de qualquer debate, é-nos sorteada a posição que teremos de defender, independentemente da nossa opinião pessoal. Muitas pessoas, provavelmente as que adquiriram as crenças e só depois os argumentos para as defender, e não o contrário, olham para isto como um grande entrave à entrada no Mundo do Debate Competitivo.

Ainda que custe a todos, por mais cépticos que sejamos, a capacidade de defender algo com o qual nunca concordaríamos é um triunfo da Dúvida.  Está aqui uma saudável forma de construir a tolerância, ao conseguirmos, por necessidade, compreender os pontos fortes e melhorar os pontos fracos daquela ideia com a qual não concordamos. Mas também pelo exercício de termos de combater aquela que é a nossa opinião real. Tendemos todos a sair da sala com uma opinião nova, mais próximos da Verdade.

Equilíbrio das discussões

Muitas vezes há discussões encapotadas de falsas discussões. No debate competitivo, o trabalho de quem faz as moções tem de ser o de garantir, entre outras coisas, que as moções são realmente equilibradas, ou seja, debatidas com equivalente grau de dificuldade para os dois lados. Imaginemos um debate sobre a legalização da escravidão: claramente este debate é desequilibrado em favor da Oposição (Oponente no modelo Schools), no entanto, outros tipos de debates desequilibrados são frequentemente debatidos num contexto que acaba por ser injusto e pouco produtivo.

Privilégio pelo conteúdo em detrimento da forma (apenas no BP)

Sim: Ethos, Logos e Pathos. No entanto, e percebendo que, mesmo indiretamente, a forma, sobretudo na clareza e estrutura do discurso, é importante para que percebam a tua mensagem, a grande riqueza do Debate BP é a clara relevância concedida ao conteúdo. Demasiadas vezes formamos sociedades e oradores talhados para a persuasão apenas com a forma e, dado que essa balança está pendendo para esse lado, é essencial construir oradores que consigam persuadir pelo conteúdo. Não conteúdo no sentido de dados ou estatísticas, mas sim com argumentação lógica e fundamentada com base em contexto, plausibilidade ou capacidade comparativa.

Só com oradores a privilegiar o conteúdo é que se pode educar mais oradores para que o privilegiem consequentemente e, sobretudo, educar mais ouvintes no sentido de o privilegiarem também. Quando a informação e a argumentação dominarem as discussões acima do resto, estaremos todos melhores.

Movimento homogéneo

A existência de um Movimento de Debate Internacional homogéneo, com as mesmas regras e com Sociedades e Movimentos Nacionais interligados, faz com que o seu potencial aumente. A confiança de que poderei ir aos Mundiais de BP de 2020 na Tailândia e encontrarei lá pessoas de todos os cantos do Mundo que poderão partilhar comigo ideias, perspetivas e know-how é uma riqueza enorme do debate competitivo. Da mesma forma que todos os falantes de língua portuguesa sabem que o Campeonato Mundial de Debate em Língua Portuguesa é a oportunidade de aproximarem os vários movimentos nacionais num caminho conjunto, alavancando, com isso, as suas comunidades além-fronteiras.

Ao fim e ao cabo, acredito que o Debate Competitivo é uma caixa de ferramentas importantíssima para concertar e aperfeiçoar cada cidadão. Numa sociedade que grita desesperadamente pela consciência e a tolerância, estou convicto que o “jogo” do Debate Competitivo pode, direta e indiretamente, desempenhar um papel fundamental na construção das pontes entre as ideias. Porque, como já ouvi dizer, “por cada ideia há a necessidade de uma ponte e por cada ponte há um passo rumo a uma Sociedade Melhor”.

João Catarino Campos

29 de março de 2019